terça-feira, 10 de setembro de 2019

The Beatles, Theodor Adorno e Olavo de Carvalho

A teoria conspiratória envolvendo os Fab Four e um filósofo alemão, na visão do polêmico Olavo de Carvalho.
The Beatles: Maior fenômeno da música pop
de todos os tempos. Em pé, da esquerda p/ a direita:
Ringo Starr (bateria, percussão e voz),
George Harrison (guitarra, violão e voz) e
John Lennon (voz, violão, guitarra e piano)
Sentado: Paul McCartney (voz, baixo, violão e piano)
Os Beatles, a maior banda de todos os tempos, esteve no centro dos movimentos culturais da década de 1960. Suas músicas arrebataram multidões e são cultuadas até hoje. Do que parecia ser uma simples "modinha" na época de seu surgimento, os Fab Four foram evoluindo musicalmente e criaram a maior coleção de sucessos perenes do século XX. 

Paul McCartney e Ringo Starr, seus ex-integrantes ainda vivos, seguem em atividade mesmo tendo 77 e 79 anos, respectivamente. Ainda assim, estão longe de serem unanimidade e a presente polêmica divulgada pelo filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, a de que eles não criaram suas canções e eram parte de uma conspiração política, acaba trazendo de volta alguns questionamentos, que não são novos. 

Os quatro rapazes de Liverpool sempre foram desdenhados por diversos críticos musicais, em geral pessoas que se prendem às canções mais simples e adolescentes do começo de carreira, ou ainda, implicam com a limitada técnica instrumental que exibiam em gravações precariamente registradas com os equipamentos da época. Apesar disso, é perceptível que, em poucos anos de carreira profissional, mudaram paradigmas, evoluíram tanto em termos de composição quanto estrutura musical e se firmaram como grandes músicos cuja obra sobreviveu ao teste do tempo. 

Famosos no mundo todo, talvez seja nos EUA onde a banda é mais amada, e onde tem alguns de seus críticos mais ferozes.
Ben Shapiro: Um brilhante debatedor americano
com um profundo desprezo pela obra dos Beatles.
Suas motivações são políticas e pessoais.
Rancores da direita

Ben Shapiro é um jovem escritor, radialista e ativista político da direita americana que exibe um profundo desprezo pela obra dos Beatles, e justifica isso dizendo ser um absurdo chamar de "músicos" quatro caras que não sabiam, assumidamente, ler partituras. Ele compara isso à situação de um analfabeto achar que pode escrever um livro. Com todo o respeito que Shapiro merece, a analogia é equivocada. 

Os Beatles eram músicos autodidatas, aprenderam sozinhos a serem multi-instrumentistas e usavam cifras ao invés de partituras para registrar suas criações. Cifras registram acordes, mas não o tempo e andamento da música, coisa que só uma partitura precisa consegue expressar. Por isso, gravavam fitas de teste, geralmente ao violão ou ao piano, para registrar um rascunho musical a ser trabalhado depois. As cifras geralmente são escritas sobre as anotações da letra original. Desde antes deles até hoje, muita gente trabalha assim, sobretudo na música pop. 

Sobre isso, nunca vi alguém questionar se Michael Jackson era um "analfabeto musical". Ele também não registrava suas composições em partituras e gravava seus rascunhos de canções usando técnicas vocais de beatbox, e não tocando algum instrumento. 

Voltando aos Beatles, Ben Shapiro se prende à formalidade de papeis para desdenhar de quem ele não gosta por motivos políticos, igual a quem, no Brasil, ofende o filósofo Olavo de Carvalho pelo fato de não ter feito faculdade ou ter sequer concluído o ensino médio. Ataca-se a ausência de formalidade técnica para ridicularizar o conteúdo e esse é um dos pontos que motivaram o presente ensaio. 
O polêmico filósofo, professor e escritor
brasileiro, Olavo de Carvalho. Não é segredo
que ele detesta rock, apesar de alguns

alunos renomados serem fãs de heavy metal.
A motivação política de Shapiro e de grande parte da direita contra os Beatles tem seu motivo bastante claro, pois a banda ajudou a sedimentar uma cultura de drogas nos anos 60, que desembocou na atual situação de grandes impérios financeiros construídos sobre o vício e a degradação social. Mesmo não intencionalmente, ao se tornarem usuários e terem se entusiasmado com drogas psicodélicas no metade dos anos 60, ajudaram a trazer glamour para uma crescente indústria ilegal que alimentava o submundo do crime e o expandia rapidamente. As conexões com grupos sociais, poderosas famílias e entidades políticas rende muitos livros, mas vamos nos ater ao suposto papel dos Beatles em uma grande conspiração cultural. 

Sem muito estudo formal, com uma bagagem cultural focada em música e literatura, mas sem um sólida visão política do mundo onde estavam inseridos, os Beatles foram realmente usados como engrenagens importantes para grandes interesses ligados à difusão das drogas no ocidente. 

Foram apresentados à maconha pelo músico americano Bob Dylan e atribuíram, num primeiro momento, sua explosão criativa na metade dos anos 60 à "expansão de consciência" proporcionada pelo uso de drogas. Descobriram depois o LSD e caíram na psicodelia que se espalhava pelas artes em geral. Mas, essa apologia em um primeiro momento de deslumbramento com as descobertas que "caíram" em suas mãos foi um discurso que abandonaram com a visão realista de que, chapados, não conseguiam produzir nada que prestasse. 

No aspecto do posicionamento político, sempre estiveram com um pé na esquerda, especialmente John Lennon (1940~1980), de temperamento iconoclasta e contestador. Já seu parceiro de composições da primeira fase da banda, Paul McCartney, sempre foi mais tradicional e apegado à família. 

Em termos musicais, se Lennon era mais experimental, Paul trouxe o uso de orquestrações eruditas para canções como "Yesterday" ou "Eleanor Rigby". Por esse motivo, ele sempre foi o mais alinhado ao produtor George Martin (1926~2016), um pianista de formação clássica que trabalhou belíssimos arranjos para valorizar muitas canções da banda. 
Cena do video clip de "Revolution", um
tapa na cara de muitos revolucionários que
esperavam que os Fab Four apoiassem as esquerdas.
Agindo politicamente

John Lennon, especialmente após se unir a Yoko Ono, tornou-se um ativista político voltado ao ideal pacifista, sendo também contrário a ideias revolucionárias, fato que lhe rendeu ataques por conta da esquerda americana. Sua composição "Revolution" (1968) conseguiu irritar muita gente progressista por sua letra que, em tom de provocação, aponta o dedo na cara dos revolucionários que querem destruição, carregam o retrato do ditador Mao Tse Tung e vêm pedir dinheiro para sua causa. 

Alguns anos depois, já em carreira solo, Lennon criaria um verdadeiro hino das esquerdas, a canção pacifista, ateísta e socialista "Imagine" (1971), o maior sucesso solo de um ex-Beatle. Na época do lançamento, Paul McCartney, que estava brigado com Lennon, apontou a hipocrisia esquerdista de cantar a poesia de um "mundo sem posses" de dentro de uma gigantesca e luxuosa mansão de sua propriedade. 

"Imagine" e, anos antes, "Revolution", foram casos em que a relevância musical acabou usada com fins políticos, mostrando posicionamentos. No auge do sucesso e durante muito tempo, os Beatles eram vistos como gurus da juventude, tudo o que eles vestiam era copiado, seus penteados eram imitados e repórteres perguntavam a eles sobre vários assuntos. John e Paul sempre foram os mais falantes do grupo, mas enquanto Paul escolhia cuidadosamente as palavras, John falava o que dava na telha e isso causou o primeiro grande atrito dos Beatles com os conservadores americanos. 
"Imagine", verdadeiro
hino esquerdista.

Em uma entrevista, Lennon comentou a explosão de popularidade dos Beatles e disse que os jovens estavam se afastando da religião. E soltou a declaração de que os Beatles estavam mais populares do que Jesus Cristo. Na Inglaterra, não causou comoção alguma. 

Nos EUA, a declaração gerou uma histeria geral, com discos sendo queimados, ameaças de morte e pedidos de boicote. Lennon tentou se explicar, em vão, de que não estava se comparando a Cristo, mas sim mostrando algo concreto: os jovens estavam correndo atrás de uma banda de rock e estavam esquecendo até da religião. Não era um deboche ou um ataque de ego, mas sim perplexidade perante algo que ele estava ainda tentando entender. 

Até hoje, existe gente diz que ele "pagou caro" por "debochar de Cristo" ao ser assassinado por um lunático muitos anos depois da tal frase mal interpretada ter sido dita. Como acontece até hoje quando um assunto envolve polêmicas no mundo político ou cultural, a errata ou explicação nunca é ouvida com a mesma boa vontade com que se ouviu, interpretou e julgou a frase original. De qualquer forma, Lennon era ateu, mas registrou, em um momento de serenidade, a canção "Happy X´mas (War is over)" (de 1972), associando o Natal ao desejo de paz. 
Theodor W. Adorno: Um dos mais intransigentes
pensadores da Escola de Frankfurt.
A conexão Adorno

O filósofo e escritor Olavo de Carvalho, na semana passada, postou um vídeo no qual dizia que iria investigar uma teoria conspiratória (que não é nova e nem criação dele), a de que os Beatles foram um plano da esquerda internacional e que suas canções foram na verdade compostas por Theodor Adorno (1903~1969). Ele foi um escritor, filósofo e músico alemão que se destacou como um dos maiores nomes da chamada Escola de Frankfurt, que trouxe para o ambiente cultural conceitos do marxismo. Essa teoria Olavo diz achar plausível, dado o suposto "semi-analfabetismo musical" dos Beatles, que segundo ele também não sabiam nem tocar violão na época. Mas, além da capacidade musical dos Beatles ter sido exaustivamente provada e registrada, o problema crucial da teoria é que Adorno odiava música pop e chegou a demonstrar desprezo pelo quarteto em uma entrevista de 1965. E não parecia que ele estava agindo para despistar, pois isso não era de seu feitio. 

Em seu livro Tolos, Fraudes e Militantes, o filósofo inglês Roger Scruton conta sobre o grande talento musical de Adorno, bem como seu discurso contra o que ele chamava de ordem burguesa e como ele encarava a cultura, que devia ser julgada e condenada em termos marxistas, seguindo as ideias de outro frankfurtiano, György Lukács (1885~1971). É com essa mentalidade que Adorno analisava a música pop, que ele detestava por considerar mera cultura vulgar da burguesia. 

Na obra Entendendo Teoria Crítica, de Stuart Sim e Borin Van Loon, Adorno é mostrado como uma personalidade cujo espírito crítico e demolidor o colocava contra ideias e conceitos de Marx e até Hegel. Stuart enfatiza que Adorno odiava jazz e música popular, preferindo a experimentação artística, fato este que o levava a se posicionar contra o realismo socialista, que não via valor em arte que não fosse voltada a mostrar a realidade como concebida idealmente pelo Partido.

É absurdo imaginar o velho filósofo rabugento e intransigente como sendo o mentor musical de uma obra tão vasta em sua diversidade sonora, que inclui deliciosas abobrinhas adolescentes como "She loves you" (1963) ou canções de amor melancólicas como "The long and winding road" (1970). Nem ele, nem uma equipe sob sua coordenação. 

Em seu breve vídeo, Olavo comenta ainda estar se inteirando sobre o assunto e que precisa pesquisar a fundo, mas diz ser totalmente plausível que outra pessoa tenha escrito para os Beatles, mostrando o mesmo desdém exibido pelo americano Ben Shapiro e tantos outros. E completou dizendo que a música dos Beatles era só uma celebração do LSD, das drogas e do satanismo. E aí a coisa fica mais complicada.
Farsantes ou gênios? Esforçados artesãos da música pop
ou meros fantoches de uma grande conspiração? Anjos ou
enviados do Inferno? O legado da banda será discutido
por toda a eternidade.
Entre a luz e as trevas

Existe realmente uma canção associada ao LSD, que é a "Lucy In The Sky With Diamonds", que sempre foi apontada como apologia à droga devido à junção das letras iniciais das palavras principais da frase. O compositor dessa, John Lennon, sempre refutou essa teoria, mas há algumas outras canções da banda assumidamente sobre drogas. Uma delas é "Got to get you in my life", que pode ter outras conotações, mas que seu autor Paul McCartney já confessou ter sido mesmo sobre maconha. 

Já o satanismo é algo bem controverso na vida dos Beatles, mesmo que eles nunca tenham demonstrado seguir tal pensamento. É famoso o caso do assassinato da atriz americana Sharon Tate, executado de forma demoníaca pela seita liderada pelo psicopata Charles Manson. Depois de preso, atribuiu seus atos a mensagens subliminares, nunca provadas, que teria entendido de canções dos Beatles, em especial "Helter Skelter" (1968), precursora do heavy metal. O delírio de Manson chocou toda a sociedade, incluindo os Beatles, que nunca entenderam ou aceitaram o fato de terem sido jogados como motivadores da sangrenta história. 

Há décadas, pesquisadores duvidosos têm dito que encontraram frases diabólicas ao ouvir músicas dos Beatles tocadas em modo reverso. Tais frases surgem aleatórias e distorcidas, em meio a sons desconexos e palavras soltas sem significado algum. Isso é algo que se assemelha a ver formas reconhecíveis em nuvens e dizer que a nuvem é o próprio objeto cuja silhueta se assemelha. Uma forma de pareidolia levada a sério. Coisas assim já foram feitas até com discos da brasileira Xuxa e ganham contornos de lenda urbana. 

Na capa do icônico álbum Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band (1967), entre muitos famosos da época, aparece a imagem do ocultista Aleister Crowley, personalidade sombria e hedonista que influenciou muita gente na época a se enveredar pela magia negra. Foi apenas uma referência visual em meio a uma verdadeira overdose visual que tentava resumir aquela época de excessos e experimentações. 

No aspecto religioso, Lennon era, como já foi mencionado, ateu. Já o seu colega George Harrison (1943~2001), durante o curso da banda, se tornou hinduísta, inclusive trazendo sons típicos da Índia para algumas gravações. Paul e Ringo Starr se mantinham mais neutros, mas uma das canções mais famosas da fase final da banda trouxe uma passagem interessante para ilustrar a real diversidade de pensamento que os Beatles abraçaram. 

Em "Let It Be" (1970), o primeiro verso diz:
"When I find myself in times of trouble, 
Mother Mary comes to me, 

Speaking words of wisdom, let it be."
Em uma antiga entrevista, Paul foi indagado se "mother Mary" era uma alusão à Nossa Senhora, ao que ele explicou que era apenas uma referência à sua mãe, chamada Mary, que morreu quando ele tinha 14 anos. Porém, acrescentou ele, se alguém se sentisse bem em imaginar a Virgem Maria naquele trecho, tudo bem, pois sua mãe era católica. Lennon, obviamente, não gostava dessa abordagem, mas nem por isso deixou de participar da gravação. 

Uma banda de orientação satanista jamais registraria essa e outras músicas com mensagens serenas, otimistas e pacíficas. Nem mesmo como "isca" para atrair incautos, pois "Let it be" foi uma das últimas canções a serem lançadas antes da separação da banda, oficializada no início de 1970.

No derradeiro lançamento antes da separação
motivada por brigas e interesses incompatíveis,
uma serena mensagem de otimismo e esperança.
Ainda sobre suas crenças pessoais, tanto Paul quanto Ringo, que pela longevidade são os que mais deram entrevistas até hoje, já falaram muito sobre a responsabilidade que tiveram perante o grande público, quando estavam no auge da fama. 

Os ex-Beatles remanescentes sempre enfatizaram que a mensagem geral da banda girava em torno do amor, que até poderiam ter dito palavras de revolta contra os pais, convocado os jovens a quebrar tudo, desrespeitarem os mais velhos e serem revolucionários, mas que nunca fizeram isso e sempre foram coerentes no aspecto do respeito, inclusive às instituições. Com isso exposto, como eles podem ser posicionados no movimento progressista internacional? A resposta não é simples, pois eles foram tanto protagonistas quanto espectadores de grandes agitações culturais. 

Em uma época de grandes transformações, os Beatles captaram o espírito de seu tempo, absorvendo muitas influências e filtrando com suas personalidades e crenças pessoais. Se por um lado foram usados involuntariamente para promover as drogas, das quais foram usuários entusiasmados no começo, por outro perceberam a tempo como movimentos revolucionários poderiam ser perigosos e registraram a já citada "Revolution" para fazer as pessoas pensarem no caminho perigoso que estavam tomando. 

Com tudo o que foi exposto, fica muito complicado aceitar a ideia de um planejamento esquerdista por trás da criação do repertório musical dos Beatles. Resumir centenas de canções a uma simples propaganda de LSD e satanismo mostra uma falta de pesquisa e aprofundamento sobre o conteúdo da obra e sobre os protagonistas da história analisada. 
The Beatles Anthology: A trajetória da banda, contada por
seus integrantes e amigos. Rendeu minissérie de TV, versão
em DVD com cenas inéditas, CDs com gravações raras
e faixas inéditas, além de um luxuoso livro.
O veredito

Com o "analfabetismo musical" dos Beatles e seu satanismo refutados, bem como seu esquerdismo radical e a tutoria de Adorno, o que resta? A resposta é um desprezo de motivações políticas e estéticas (especificamente, gosto pessoal), que busca uma razão de ser em qualquer teoria conspiratória que explique a impossibilidade de quatro rapazes comuns e de baixa escolaridade terem tido uma influência musical e cultural tão forte e duradoura se não fosse por uma diabólica arquitetura montada por grandes poderes ocultos. 

Obviamente, só um ingênuo pode acreditar que não existem grandes conspirações escondidas por trás de muitos eventos de consequências devastadoras a médio e longo prazo (e o próprio Olavo já desvendou algumas). Porém, a trajetória dos Beatles foi amplamente documentada, registrada e catalogada por inúmeras pessoas que conviveram com eles e podem ser consideradas fontes primárias. Ainda, existem incontáveis relatos dos próprios narrando a história que agora é chamada de uma grande farsa com infinito número de comparsas para fazê-la soar verossímil. 

Cada canção possui uma história, algumas foram modificadas no processo de gravação e na interação dos integrantes da banda. Centenas de horas de gravações não aproveitadas abasteceram por décadas um mercado de gravações piratas que somente atestam o processo criativo incansável da banda. 
The Rough Guide To The Beatles:
Excelente guia para conhecer melhor a
trajetória da banda.
Um bom livro a registrar as fases, histórias e mitos envolvendo o lendário quarteto é The Rough Guide To The Beatles, de Chris Ingram. A obra, mesmo concisa, é bastante completa e chega a fazer uma análise técnica dos estilos musicais e de composição dos integrantes, refletindo suas percepções musicais e a forma como evoluíram. E, vale lembrar, todos seguiram com carreiras solo bem sucedidas comercialmente, especialmente Paul McCartney, o mais prolífico de todos. Outros aspectos são contados pelos próprios músicos e pessoas que conviveram com eles no documentário multimídia Anthology, verdadeira preciosidade para fãs. 

Eles não eram, absolutamente, quatro marionetes sem talento que apenas seguiam um script maquiavelicamente criado para implantar o marxismo cultural na sociedade e destruir o ocidente através da cultura das drogas. Revolução não era com eles e dois de seus integrantes, Paul e Ringo, sempre tiveram um pé no conservadorismo, mesmo sendo vegetarianos e simpáticos ao uso de drogas leves. Ringo, inclusive, declarou recentemente ser a favor do Brexit, dizendo ser bom um país poder cuidar de seus interesses, indo contra o globalismo e enfurecendo a mídia esquerdista inglesa. 

Em seu livro Ganhar de Lavada, o cartunista e comentarista político Scott Adams explica os mecanismos de tomada de decisões e de crenças, que em geral têm um fundo emocional arraigado. Segundo ele, somente em um segundo momento, e com a certeza já instalada, buscamos o chamado viés de confirmação, que exige também que se ignore "detalhes" que contradigam a racionalidade da opinião cristalizada. 

Ninguém está imune a isso, e a solução para não se cair nesse tipo de armadilha mental está em orientações do próprio Olavo de Carvalho: pesquisar fontes primárias, seguir o dinheiro e ir além das aparências e conclusões óbvias. Falando em obviedades, a imprensa não perdeu tempo em usar as rápidas declarações do escritor, pontuadas de ranço e desconhecimento do tema, para uma daquelas campanhas para ridicularizar sua figura e tirar sua credibilidade nos assuntos que mais domina. O detalhe importante é que Olavo também diz que sabe pouco sobre o assunto e ia investigar mais, apesar de achar plausível a história (o que espero ter demonstrado neste texto que não é).

Grande combatente do marxismo, Olavo também aconselha que se leia muito o que Karl Marx escreveu e fez para poder confrontar suas opiniões ao invés de se basear somente em teorias e visões de terceiros. 

Com esse rigor aplicado a qualquer tema, é possível montar um painel abrangente para abalizar discussões sobre cada assunto que venha a gerar algum tipo de polêmica. Até mesmo para, como o próprio Olavo incentiva em seus cursos, ser possível chegar a conclusões independentes, sem acreditar cegamente no que ele próprio diz. No fim, a boa música e a boa arte sobrevivem a tudo isso, exatamente como deve ser.


***********

Leia sobre outra polêmica olavista:

Olavo de Carvalho e a Terra Plana

Livros de Olavo de Carvalho:

O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota

A Nova Era e a Revolução Cultural 
O Jardim Das Aflições 
O Imbecil Coletivo 


::: Dicas Amazon :::

    

    

7 comentários:

anderson disse...

A palavra Beatles me faz lembrar da musica de MacCartney para meu filme favorito de
James Bond na infância(preferia os 007 de Roger Moore e Pierce Brosnan).Mas analisando
um pouco,é compreensível adultos sérios nos anos 60 desconfiarem desses músicos.
E uma curiosidade bizarra:nos anos 70 quase foi feito um filme de Lord of The Rings com
os Beatles como Hobbits,mas acabou sendo vetado por ser infiel a obra de Tolkien(havia até
cenas de sexo no roteiro).

De Marco - Atelier de festas infantis disse...

Muito bom texto, ou tal vez seja melhor chamar de matéria. Independente de acreditar ou não nessa teoria eu gosto e sou fã das músicas dos Beatles até hoje. Tal vez alguma que outra música tenha sido 'forjada" com o intuito de enviar alguma mensagem marxista, mas fazer o quê...o Comunismo sempre está à espreita da juventude e não seria diferente naquele momento de efervescência juvenil. mas de qualquer forma Parabéns pela incrível dedicação com o texto, a gramática, num momento em que pouco lemos e muito menos escrevemos. Abcs e até próximo post!

Detonation Uchiha disse...

Nagado, você está de parabéns! Você fez um trabalho de pesquisa e escrita impressionante! Sobre a tal polêmica, estou sabendo dela agora, e devo dizer que nunca escutei muito Beatles apesar de gostar de algumas músicas e entender a importância que o grupo têm no cenário musical e acho um pena que o Olavo de Carvalho dê atenção a certos tipos de besteiras como estas. Pô, eu tenho um imenso respeito por ele, mas ele dá muita corda para certas tolices e o pior é que graças ao cenário atual na política, a internet está cheia de urubus só esperando alguma coisa que ridicularize a direita. Por mais que o Olavo deixe claro que ele não tem opinião formada sobre determinado assunto (por mais absurdo que pareça tal assunto), o rastro de gasolina já está espalhado e a mínima fagulha já é o suficiente para deixar tudo em chamas.

Alexandre Nagado disse...

Grande Claudio de Marco! Obrigado pela visita aqui! Além do desenho, temos os Beatles em comum em nossas vidas. O legal é que aprendemos a separar as coisas, a analisar com distanciamento e ainda assim mantendo o gosto pela boa música. Esse foi um dos textos mais difíceis que já escrevi, mas ao mesmo tempo, fluiu rapidamente, pois para mim as ideias envolvidas estavam bem claras. A repercussão, no geral, tem sido boa. Ainda bem.

Grande abraço!

Alexandre Nagado disse...

Obrigado, Uchiha!

Tem horas em que eu gostaria de ter tempo para entrar de sola na guerra cultural através de um canal no YouTube, mas frente à falta de tempo e infraestrutura, vou fazendo o que posso em texto mesmo. A repercussão de um texto é infinitamente menor que a de um vídeo, mas tento assim passar informação de modo mais consistente e trabalhar conceitos mais complexos. Pena que o alcance é muito limitado, pois as pessoas em geral têm preguiça de ler.

Valeu! Abraço!

Jason Scott disse...

Nagado, na música 'Bring On The Lucie (Freda Peeple)', sei lá, fico com a impressão que o John Lennon percebeu algo e resolveu mandar um recado... Outra coisa, será que ele morreu ateu? Na música 'Beautiful Boy (Darling Boy)' ele pede para o filho rezar antes de dormir...

Alexandre Nagado disse...

Olá, Jason! Você trouxe uma questão interessante. Não há como sabermos se Lennon morreu ateu, muito menos os que gostam de dizer que ele foi assassinado por ter sido "desrespeitoso com a religião". Esses são fariseus, não vale à pena ouvir. A letra de "Beautiful Boy" é uma das coisas mais maduras e serenas que Lennon escreveu e sua observação é muito pertinente.

Valeu! Abraço!