segunda-feira, 14 de maio de 2018

Tiros de mãe

Armas de verdade não atiram flores. Ainda bem.
Um dos casos mais comentados nas redes sociais no fim de semana que passou foi a ação acontecida no dia 12 de maio em Suzano, interior de São Paulo. Na saída de uma escola, um assaltante chegou apontando uma arma na direção de mulheres e seus filhos pequenos. Uma das mães era policial e reagiu, conseguindo matar o criminoso. 

A maioria das manifestações que li foram lamentáveis. De um lado, o pessoal dizendo que "tinha que dar dez tiros na cara", "tinha que passar o carro por cima depois de matar" e por aí vai. Não acredito que "bandido bom é bandido morto", mas sou plenamente favorável tanto à pena de morte para casos extremos quanto favorável a uma polícia bem aparelhada e bem treinada, além da permissão para cidadãos de ficha limpa serem capacitados a portar armas para sua defesa. Mas, as manifestações do outro lado foram ainda mais piores. 

Vi justiceiros sociais dizendo "pra quê matar, não podia atirar no braço?" ou "por quê não esperou ele agir (roubar) e depois correu atrás dele?". Segundo esses idiotas sem noção, tem que esperar o bandido atirar em você pra depois revidar. Agora, vou falar sobre algo que tenho conhecimento técnico.

Sou servidor público da área de vigilância patrimonial. Fui treinado em uma escola com professores que eram ex-PMs e até ex-soldados. A coisa lá era mostrada com muita seriedade. Primeiro, aprendemos que não se deve reagir a uma ameaça de mão armada, exceto se estivermos também armados e percebermos uma chance de reação. Isso pode ser um microssegundo, um momento de distração do bandido. E aí, tem que sacar a arma e atirar mesmo, na defesa da própria vida ou de terceiros inocentes. 

A ação, rápida e explosiva. (Abaixo, deve aparecer o vídeo. Notei que ele desaparece da página a todo momento. Pode ser um daqueles bugs irritantes do Blogspot. Ou não. Em todo caso, abaixo tem o link direto para o vídeo, caso não apareça aqui.

(Link direto: https://youtu.be/Z4hHFMiu7N8)

Não tem essa de atirar na mão ou braço, isso é coisa de filme. É difícil mirar com essa precisão, pois a ação deve ser muito rápida. E mesmo com um tiro recebido no braço, muitos conseguem ainda atirar de volta, matando o oponente. A orientação técnica oficial é atirar no peito, pois isso sim tira qualquer chance de reação e dá chance de sobrevivência ao atingido. Quando treinamos com alvo de papel, há uma silhueta humana e é destacada a área do "garrafão", que pega o peito e o pescoço. Tiros na cabeça são proibidos por serem considerados execução sumária e tiram pontos de quem acerta na área da cabeça do alvo (ou o topo do garrafão, em alguns gráficos) nos treinos e provas de tiro. Isto posto, fui ver o vídeo da ação da policial. E foi impecável, agindo de perto e correndo risco. 

Ela agiu de modo preciso e sem excesso de força. Vi idiotas dizendo que viu apenas "uma policial executando um homem que já estava rendido". Não a vi maltratando o "coitadinho" depois que ele se rendeu. Ela acertou dois tiros, sendo um no peito e outro na perna. E ele se movia ainda, sendo que ela o imobilizou no chão. Depois, ele morreu em decorrência do ferimento no peito. 

Ao agir, o agente ou policial assume o risco de matar, mas um tiro no peito dá estatisticamente mais chance do oponente sobreviver do que um tiro na barriga, por exemplo. Aprender como matar é horrível, mas não se combate o crime com flores e poesias. Se o criminoso tivesse matado alguma criança ou mãe, ainda assim justiceiros sociais iam ver o lado da "vítima da sociedade". 

Cretinos hipócritas como Leonardo Sakamoto (que já deu razão pra assaltante, desejando que "burguês" se ferre), Gregorio Duvivier (o pseudo-humorista comunista milionário plantador de maconha) e Marcia Tiburi (a petista que vê lógica no ato de assaltar) devem estar desejando a morte da policial, que mandou mais um meliante para o Inferno. 

A policial agiu na defesa das crianças - incluindo suas próprias filhas - e fez aquilo para o que são treinados os policiais, que é proteger as pessoas. Quem diz que ela foi irresponsável abrindo fogo perto de crianças prefere imaginar que o pobre bandido estava só fazendo bravatas, não pretendia atirar, estava só brincando. Aliás, consta que ele atirou primeiro sim, mas depois de errar um tiro, a arma travou. 

A moça foi até condecorada pela bravura, mas eu condeno a exibição midiática de sua identidade. Por questões de segurança, ele devia ter a identidade preservada e ser transferida de posto. 

Hoje em dia, com as redes sociais, todo mundo tem opinião sobre tudo. Porém, pior do que as opiniões emitidas sem conhecimento técnico (que afinal, pouca gente tem), foram as inúmeras manifestações de que a policial errou e que o bandido foi uma vítima. Nossa sociedade inverteu os valores morais e a politização tem gerado pessoas desprovidas de bom senso, empatia e capacidade interpretativa. 

10 comentários:

Stephano Barbosa disse...

Sobre a legítima defesa da PM contra o ladrão.Ela agiu em legítima defesa. Sobre a possibilidade de reação dela. O fator quantidade de gente ajudou-a. É difícil alguém conseguir prestar atenção em várias pessoas ao mesmo tempo. Isso gera brecha perfeita. Sobre os justiceiros sociais, eles poderiam ganhar 1 passagem de ida sem volta pra Arábia ou Coreia (N) . Lá eles poderiam "convencer" os dirigentes numa boa...
Não me regojizo da morte do infeliz, não quero me rebaixar ao nível dele. Ele era apenas carrasco da sociedade.



Assunto extra

Se o cara cometeu delito menor (furto, por exemplo) ou contravenção, aprovo que ele pague com serviços comunitários e multa. Cara cometeu vandalismo?? Que seja obrigado a pintar muros ou então trabalhos forçados pra indenizar o proprietário (orelhão por exemplo).
Crime contra a honra. A pena deveria ser proporcional ao crime. Ex: A acusou falsamente B de homicídio e esta acabou linchada e morta. O caluniador deve pegar no mínimo 30 anos de prisão. Os que caluniaram os donos e funcionários da Escola Base mereciam pegar vários anos de prisão.

Stephano Barbosa disse...

Qual sua opinião sobre criminosos arrependidos que nem Obuscetta?? Merecem indulto ?

Alexandre Nagado disse...

Fala, Stephano!

Sim, até uma promotora se manifestou, dizendo que, independente da ação policial, o que a moça fez foi sim legítima defesa. E esse ponto que mencionou, sobre não fazer festa com a morte do bandido, mas ver como algo necessário, foi parecido com o que o Danilo Gentilli comentou no Twitter. E acredita que teve gente chamando o Danilo de comunista? Que absurdo, logo ele, que tanto faz para desacreditar o pessoal de esquerda... Não podemos nos rebaixar ao nível dos bandidos não. E sobre penas alternativas, concordo com você.

E aproveitando para responder sua pergunta sobre criminosos arrependidos, eu acredito sim no arrependimento. Inclusive, o arrependimento é um dos pilares de minha religião católica. No entanto, uma declaração de arrependimento jamais pode atenuar a pena a ser aplicada, a menos que tenha sido um caso de ação culposa, não de dolo. No caso do falecido ex-mafioso e delator Tomaso Buscetta, sinceramente não me sinto capaz de julgar, pois lembro pouco do caso. Mas ele delatou muitos figurões e isso ajudou as autoridades. Concordo com o benefício da delação premiada, mas sempre com muita cautela e checagem.

Falou! Abraço!

Stephano Barbosa disse...

Discordo que todo esquerdista é assim. Veja se o tio Kim tolera meliante. O meliante ia passar férias no "campo". Imagina algum malaco aprontando e desafiando a lei em Cuba. Paredon ! Uma russa me disse que Stálin mandou ladrões e marginais passarem férias na Sibéria. (tanto preso político quanto comum passavam férias lá)

Sobre arrependimento, se o autor cometeu delito de baixa gravidade, aprovo... e até mesmo aprovaria indulto ou condicional.
Sobre a glorificação de criminosos. Se lembra que Ronny Biggs praticamente virou herói no Brasil? Atração turística. Certamente porque ele era gringo.

Usys 222 disse...

Vi o vídeo e imaginando a situação pelos olhos da policial sinto que ela vai ter pesadelos por muito tempo. Matar uma pessoa não é fácil. Não é só puxar o gatilho e acabou. O impacto psicológico é grande e deixa marcas profundas. Isso não é um jogo.

Mesmo assim acredito que ela tomou a decisão mais correta naquela situação. Talvez não tenha sido "perfeita", como outros podem dizer ou exigir, mas creio que foi a melhor. Se fosse possível apenas capturar o criminoso naquela hora, provavelmente é o que a policial teria feito, mas não era o caso. Tanto que ela não deu tiros desnecessários, mostrando que a intenção não era matar.

Mas o que me preocupa é a reação da população. Vejo muitos comemorarem o fato do criminoso ter sido morto ao invés do fato dela ter protegido todas aquelas pessoas. Pode parecer a mesma coisa, mas não é. O objetivo de um policial não é matar, mas sim proteger. Mas vejo que muita gente não sabe qual é a diferença, que está na intenção...

Alexandre Nagado disse...

Olá, Usys.

Realmente, foi uma situação muito complicada e a ação tinha que ser imediata. O cara estava mandando as mulheres abrirem a bolsa. Aí ele vê a arma na bolsa da policial e obviamente ia atirar nela. Se alguma mulher ou criança grita, ele se assusta e mata todo mundo. Não era difícil de acontecer. E sim, a função da polícia é proteger a população. Matar bandido é consequência da ação, quando necessária devido à violência do crime.

E a Globo News está fazendo uma enquete perguntando "Policial de folga deve reagir a assalto?" Mas que pergunta mais canalha essa. Estão tentando fabricar revolta contra a polícia pela crueldade em matar um "suspeito" que "possivelmente" ameaçava mulheres e crianças. O mundo está virado, mesmo.

As reações de comemoração também me enojaram. Mas é o mesmo povo que pede golpe militar, então não me surpreendo, apenas lamento.

Adelmo Veloso disse...

Assisti ao vídeo e tiro o chapéu para a policial, por tomar a decisão correta defendendo suas filhas e demais pessoas ali no momento. Deu pra ver que a pessoa do carro vermelho estava desesperada, deixando a policial desprotegida (afinal a motorista era praticamente o escudo) e quase foi atropelada, mas tudo isso faz parte.

Também já recebi treinamento para atirar com pistola - e digo que é uma das tarefas mais difíceis da minha área, pois com outros tipos de armamento a pontaria e precisão são bem mais tranquilas de se fazer e obter. Acertar o alvo com pistola não é como nos filmes - uma simples tremida na mão é capaz de mudar totalmente a trajetória do tiro e acertar um inocente.

Outro ponto é um que já foi destacado tanto nos telejornais quanto nas conversas no trabalho: enquanto um policial/militar/vigilante tem uma fração de segundo para tomar uma decisão, as autoridades que analisam o caso levam dias, meses e até anos para dar o seu parecer - muitas vezes favorecendo "a vítima". Por falar em vítima, vem ao caso a maneira como essas notícias são repassadas ao público. Há alguns dias li algo como "PM de FOLGA mata bandido em frente à escola com crianças", mostrando o quão tendenciosas são. Há outros como "homem é assassinado por PM ao tentar roubar loja tal" e por aí vai. Ridículo isso tudo.

Também é muito fácil ser a favor do controle de tudo pelo Estado quando já se tem uma riqueza considerável. Pimenta no olho dos outros é refresco. Acho melhor parar por aqui ou farei aqueles textões contra essa gente...

Stephano Barbosa disse...

Nagado, sabia que algumas pessoas comemoraram a chacina da Candelária ?
Alegação delas foi: "Tinha que matar essas pragas todas".
O senso de vingança é + forte que da justiça no país.

Alexandre Nagado disse...

Fala, Adelmo. Sim, quem teve treinamento tático para situações desse tipo se irrita com a quantidade de bobagens ditas na mídia.

Os justiceiros sociais são muito hipócritas e mal-intencionados. E querem ver PM morto e a polícia extinta. Pra eles, só bandido presta.

Inversão total de valores.

Abraço!

Stephano Barbosa disse...

Nagado, na periferia, a punição contra 1 ladrão faz qualquer estado muçulmano parecer fichinha. 1 ambulante me disse que na "área" dele, 1 infeliz que assaltou um ônibus foi brutalmente espancado por populares. Só não morreu porque a PM chegou a tempo. Ele também me disse que certa feita alguém furtou os sapatos dele que estavam secando no quintal da casa dele. Ele procurou e nada. Apareceu 1 cidadão com os sapatos furtados e disse a ele: - cara que levou os seus sapatos eu "dei 1 jeito".
Curiosamente os justiceiros sociais não dão 1 pio sobre isso.